sábado, 29 de novembro de 2008

Bancos públicos e gestão da crise

Muito se fala, nas últimas semanas, sobre a intervenção dos bancos públicos federais (BB, CEF e BNDES) sobre a distribuição e irrigação do crédito. Responsáveis por 35 % do crédito no país, essas instituições aumentaram significativamente suas carteiras de crédito nas últimas quinzenas. Somente no mês de outubro, a carteira dos bancos públicos cresceu 5,4% ante 1,8% dos bancos privados. Mesmo com todas as medidas cautelares tomadas pelo BACEN para liberar mais crédito de capital de giro para as empresas, as estatísticas mostram que houve ligeira retração desses movimentos. Ora, em tempos de crise de confiança, os bancos públicos são as instituições mais "confiáveis" do ponto de vista fiduciário. Esse fato, histórico por sinal, reforça a tese leninista da necessidade de um sistema financeiro forte para países em pleno desenvolvimento das estruturas básicas (como o brasil). Sem deixar de dar créditos a Hilferding, não fosse a dominação monetarista do banco central, poderíamos dizer que os bancos nacionais nunca ostentaram posições tão progressistas quanto as atuais, em tempos de democracia.

Isso não significa dizer que os bancos públicos devem manipular o sistema econômico nacional. Sim, pois há quem acredite que "tudo" tem que ser do estado. Em períodos turbulentos, crédito empoçado, confiança abaixo de zero, altas taxas interbancárias, secura do capital de giro, entre outross fatores, fica evidente que não poderia haver nenhuma outra instituição, além do BACEN (caso pudesse, pois a legislação brasileira não permite), para dar sobrevida à economia e manter, minimamente, os níveis de emprego, renda e produtividade, alcançados nos últimos anos.

Por outro lado, urge realizar uma análise meticulosa sobre o período que se estende de 2003 a 2008, no Brasil, com vistas a conhecer o tipo de crescimento e produtividade determinantes para o aumento do produto interno verificado nos últimos anos.

Digo isso, pois o período citado, de extrema bonança do capital especulativo, permitiu inferir falsas análises sobre a long term infrastructure nacional, ou seja, ao acreditar que a telha não ia cair nunca, tocamos a pular e dançar em cima dela. Resta saber se o colchao que preparamos para a queda é de mola e reforçado, ou de espuma velha, oitocentista.

O tipo de reserva cambial que o Brasil logrou ter realizado (de curto prazo especulativa), é um belo indicador de que precisaremos, sem dúvida, de um colchao mais "afofado" e, talvez, do corpo de bombeiros de alerta.

Veremos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A importância do Sistema Financeiro Nacional

Começamos a semana com duas notícias bombásticas: a fusão entre Itaú e Unibanco e a eleição do camarada Barack Obama. Sem querer ofuscar a vitória de nosso futuro inimigo econômico (sim, pois do ponto de vista regulatório Obama está para os EUA como Lula para o Brasil), creio que a fusão entre dois dos maiores bancos nacionais deve ser maior motivo de preocupação para nós, brasileiros. Despejando viés ideológico na análise, podemos inquirir sobre a necessidade de um sistema financeiro carregado de grandes oligopólios setoriais (Itaú pequenas e médias empresas, CEF habitação e poupança, BB crédito agrícola, Bradesco "varejão", etc.). Ignácio Rangel, Celso Furtado e Roberto Simonsen já preconizavam (inspirados em Lênin e Hilferding), sobre a premência de um sistema financeiro sólido e líquido, dotado de instrumental necessário para irrigar e capilarizar o território com crédito e serviços. Todavia, talvez, e essa é a pergunta desse post, para que se mantenha um sistema financeiro sólido, a existência de bancos gigantes é condição sine qua non? O território não poderia ser melhor distribuído com serviços se houvessem mais bancos locais, atrelados às necessidades de investimentos regionalizados, como é o caso do banco agrícola do norte do paraná, ou das caixas econômicas estaduais do período desenvolvimentista? Não me resta dúvida que um forte sistema financeiro/bancário rígido, líquido e seguro é imprescindível para o desenvolvimento catalisado dos países em subdesenvolvimento, pois o crédito é a principal válvula de escape desses territórios. Porém, vale o esforço verificar em que medida esse fortalecimento é um discurso ideológico/político, ou, como diz nosso professor Armem Mamigonian, uma "disgraceira do imperialismo norte-americano", ou, mudando de lado, faz parte da política de investimento das infra-estruturas essenciais que garantam a possibilidade da cidadania nunca perfilada aqui, em pindorama.

Mãos à obra, estudantada
Delfim taí, até agora
e nós aqui, fazendo nada
coçando, olhando a hora

taxa de juro, consumo
Liquidez e inflação
para não perder o rumo
e salvarmos a nação





quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A crise e o PAC

Senhores (as),

A violência com a qual a crise se alastra faz lembrar (não em memória!) os primeiros anos de ressaca da crise de 1929. Naqueles anos, com vistas a salvar a malfadada produção do café, o Brasil mergulhou em uma política anticíclica e tocou os investimentos, perenizados no café, com o intuito de desempoçar a produção gerando renda para estimular consumo e o gasto corrente. Com a quebradeira geral no mundo exterior, o país se viu forçado a estimular a produção interna, desenvolver uma indústria produtiva, aproveitando a situação desfavorável dos países exportadores de produtos acabados (FURTADO, 2004). Bem, a "vantagem do atraso" (RANGEL, 1978) ajudou a catalisar esse processo, contando com volume expressivo de dinheiro público.

Hoje, agora, o Brasil tem a possibilidade de retomar esse processo, desde que use o PAC como instrumento máximo para viabilizar os investimentos em infra-estrutura pesada e produtiva. Dotar o território com sistemas de objetos capazes de alavancar os "efeitos multiplicadores" é um instrumento antigo de usufruto típico dos países subdesenvolvidos. Com efeito, a nova MP que permite que a CAIXA e o Banco do Brasil comprem participações em empresas com dificuldades financeiras, faz parte dessa estratégia de estimular a aceleração do PAC (tautologia!), com solavancos específicos.

No outro flanco, mas não menos importante, ajustar a política monetária para níveis de preços da moeda mais afinados com o crescimento econômico alavancado (com baixa, mas presente, inflação) é outra necessidade fundamental. Com a moeda valorizada, setores da indústria ligado às exportações sofrem para alocarem seus produtos. Mas aqui mora o perigo: não basta distribuir ferramentas para os exportadores. É necessário garantir que o investimento em P&D está inserindo valor e tecnologia de produção, caso contrário voltaremos ao que Celso Furtado chamou de "empresa agrícola do sec XV".

Se o PAC conseguir equilibrar essas assimetrias, teremos um futuro mais próspero para a indústria de bens de consumo nacional, a que mais emprega, mais inova e mais acelera o crescimento econômico. 

Segue a discussão.

Abraço

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Novo velho paradigma


Com o intuito de melhor servir ao interesse público, este blog, a partir de agora, servirá de abrigo para as novas idéias do desenvolvimentismo brasileiro. Ao reunir ingredientes como juventude, vontade, conhecimento incipiente, meio acadêmico, meio popular, música, informações, entre outras variáveis, esse espaço servirá para registrar os passos dessa inquietude que acossa a nós, os intrépidos responsáveis pelo futuro da república.

Inspirados nos clássicos da economia política, da teoria econômica, da geografia e da teoria política, buscaremos, abnegados da redenção, o conhecimento comum, o bem público, o desenvolvimento, o progresso e a aproximação equânime das situações. Com esforço e dedicação, pretendemos pensar no concreto, e para o concreto.

O que vem a seguir é só o começo. Aguardemos a próxima postagem.

Força e coragem. 

"Um estudo da história da opinião é um prelúdio necessário à emancipação da mente." 
                                                                                                                 John Maynard Keynes


terça-feira, 29 de julho de 2008

O grito dos inaudíveis


"A Terra é azul", bradou Yuri Gagarin a bordo da espaçonave que "navegou" a órbita terrestre no início da década de 1960. Por enquanto ainda é. Pois catita e fagueira vai se transformando em algo que nem o IPCC, nem Aziz Ab'Saber, nem Nostradamos sabem definir o que é. Não sou especialista em assuntos ambientais (aliás, não sou especialista em coisa alguma) e sou um feroz crítico daqueles que perdem seu tempo tentando descobrir por quantas vezes as formigas selvagens tropicais acasalam num dia. Todavia é inegável que as preocupações ambientais começam a atravessar as relações internacionais do ponto de vista político e econômico. Dos movimentos migratórios aos opulentos subsídios agrícolas, das tergiversações sobre o uso dos trangênicos e o fim das espécies naturais, entre outros, são alguns exemplos. Assim como Krypton que fora destruída pela própria civilização, em função da política ambiciosa, a Terra, aos poucos, vai caminhando para a destruição. Desmatamos as florestas, ajudamos a derreter as geleiras (ok, isso é controverso, mas só pra engrossar meu caldo vou ratificar), poluímos a atmosfera, aceleramos a desertificação das zonas tropicais, entulhamos o oceano com óleo, plástico e dejetos mais sortidos possíveis, não cuidamos dos rios, lagos e lagunas, nos degladiamos em ringues inúteis como as reuniões da OMC, etc. etc. etc.
Talvez a destruição seja inevitável, ainda que caiba perquirir sobre isso, mas, há como recrudescer ou postergar a catástrofe. Na história de Krypton, Jor-El envia seu filho para salvar sua civilização justamente em nosso planeta, para, quem sabe, reconstruir a história e salvar os humanos dos erros cometidos pelos kryptonianos. Nem a ficção foi capaz de nos alertar. Talvez nos falte um Jor-El para enviar um humano a outro planeta e reconstuir tudo novamente. Mas, pensando bem, é melhor que falte mesmo.
Esse post é dedicado àqueles que lutam pela conservação do nosso planeta ao mesmo tempo em que lutam pela simétrica perpetuação de nossa espécie. Quem acompanha o trabalho de Rujendra Pachauri e do IPCC sabe do que estou falando. Quem não conhece, não perca tempo!! Vá atrás, conheça, leia, ou, então, vá para o inferno.
Abraço

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Chevaliers de sangreal


A tentativa de salvar a rodada de negociações Doha, em 2001, assiste nesta semana mais um capítulo de sua longa história. A ambiciosa tentativa de imprimir a maior abertura do comércio mundial demanda ponderações pertinentes a sua implementação. As notícias de Genebra, até agora, não são muito animadoras quanto à exequibilidade dos acordos. O Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, sem dúvida uma de nossas grandes referências, embarcou, todavia, no que chamaria de missão "kamikaze" (já que estamos em épocas de metáforas históricas). Ora, minhas reflexões são contumazes, embora soem infantis devido minha descrença em certos tipos de relações comerciais. Estamos, junto com Amorim, em conflito com os países desenvolvidos, pois estes subsidiam seus agricultores com linhas de créditos especiais e taxas abusivas às importações de commodities dos países em desenvolvimento. O frisson centra-se em certa desvalorização no longo prazo e no possível bloqueio do crescimento econômico dos países exportadores. A assimetria da contrapartida solicitada pelos países mais ricos é tamanho absurda, que, em meu ponto de vista, chega a ser anedótica (não sei se essa palavra existe). Para que nossos agricultores tenham acesso ao mercado interno do G-5, seria necessário que reduzíssemos as tarifas alfandegárias de produtos industrializados. Ora, essa distorção aparenta um retrocesso à época mercantilista (se é que essa época se foi!!!) senão vejamos: estamos brigando para exportar soja, minério, suco de laranja, cana, etc.; cabe a ressalva de que esses produtos todos são enviados in natura, isto é, apenas para ilustrar com dois exemplos, o minério sai do Brasil, viaja 16 mil Km até a China, onde é processado pela indústria siderúrgica, para, em seguida, retornar ao Brasil em forma de trilhos, a tonelada do minério é vendida à média de US$ 150, enquanto a tonelada dos trilhos é importada por US$ 750 (ver Valor Econômico e Folha de S. Paulo de 21/07/2008). O suco de laranja não deixa por menos, pois é exportado em forma concentrada a granel, para ser processado, industrializado e envasado no exterior; em seguida, quem diria, é exportado para o Brasil. Isso mesmo!! Importamos o suco de laranja que começa a ser produzido aqui em Bebedouro, Taquaritinga, Matão, Itápolis, etc.

Para resumir, o núcleo de minha inquietação está na seguinte pergunta: Será que realmente precisamos ter sucesso nas negociações da OMC? Deveríamos, de fato, salvar a rodada Doha? Quais seriam os fins? Na minha maculada (pois não estou preparado) leitura, o sucesso dessa negociata seria perpetuar a assimetria que vigora desde a era colombiana. Continuaríamos a exportar minério, soja e laranja, produtos de baixo valor agregado, enquanto importamos toda a base produtiva do país. Deixarei essa leitura no plano da superficialidade (poderia aprofundar a discussão, mas...) pois aqui não há espaço para divagações contundentes. Se esse post conduzi-lo (a) à reflexão sobre a questão, a missão está cumprida. Obviamente que não se trata de uma "nova" polêmica, pois duvido que um diplomata do calibre de Celso Amorim não a tenha considerado. Todavia, faz-se mister uma breve ponderação e, se possível, marchemos a discussão aos arautos da diplomacia nacional.

É, eu sei. Isso já é muita ambição para esse blog. Mas, toda verdadeira cruzada começa assim: uma pequena inquietude que se transforma em uma verdadeira batalha.

Levante sua bandeira, pois o Santo Graal do século XXI não é um artefato qualquer, mas, sim, um conjunto de normas e leis que, uma vez assinadas, só a guerra é capaz de derrubá-las.

Pelo andar da carruagem, e pela honestidade das relações, é melhor preparar a espada e o escudo.

Já posso ouvir o som das baionetas.


segunda-feira, 21 de julho de 2008

Referências


Semana passada o delegado da Polícia Federal, Protógenes Queiroz, afastou-se do caso que liderou por mais de 4 anos, ainda que o "filé" de seu árduo trabalho esteja em plena degustação neste momento. Pressão? Ingerência externa? Fato é que já estão "malhando" o judas no delegado. Neste final de semana, o chanceler Celso Amorim fora severamente apedrejado (figura de linguagem) por comparar a reticente tentativa dos países mais ricos em tornar verossímil tarifas assimétricas na OMC (em referência à rodada de Doha), com a fórmula nazista (Goebbles) de se criar uma falsa verdade a partir da catafasia propagandística. Atualmente, autoridades chinesas são apontadas como responsáveis pelo presente cenário inflacionário mundial, pois colocou-se cerca de 200 milhões de pessoas no mercado consumidor, provendo-lhes poder de compra, sustentabilidade sem assistencialismo, tirando-os da linha da miséria.
Ou estamos com sérios problemas em reconhecer as boas referências em sua luta para a distribuição de "bondade e benevolência" (ver post abaixo), ou, notadamente, já não nos importamos mais com elas. Fato relevante para nós é que o povo não quer justiça, mas, sim, que pessoas acima do "standard" social sejam presas ou culpadas de uma realidade sem lei, de uma moral sem dono. Mas o pior ainda está por vir. Quando a inflação sair da esfera das commodities e alcançar os bens de consumo duráveis e não duráveis, afetando, assim, a classe média propriamente dita, aí sim a anarquia social será instaurada.
O que será de nós se o preço do Ipod subir? Culpa do Celso Amorim, que fica gastando seu precioso tempo com o sofisma dos preços agrícolas na OMC. Ou então culpemos o delegado Protógenes Queiroz por acusar e prender Daniel Dantas, bloqueando, assim, um dos maiores negócios do capitalismo moderno brasileiro, o que impediria muita gente de ter acesso à internet banda larga de 30 mb. Que tragédia! Deveríamos, então, aplicar a política nazista de Goebbles e executar a "solução final" aos mais de 200 milhões de novos consumidores chineses, afastando de vez com o problema inflacionário. Dos males o menor. Que morram os comunistas chineses!
Como disse acima, é apenas um grave problema de referência.
É cansativo e desanima. Mas, se Rocky Balboa continua na ativa, quem sou eu para desistir?
Isso é que é referência!


sexta-feira, 18 de julho de 2008

Fibra Moral

" Preferi a tranquilidade do silêncio ao ruído das propagandas falazes; não suportei afetações; as cortesias rasteiras, sinuosas e insinuantes, jamais encontraram agasalho em mim; em lugar algum pretendi subjugar, mas ninguém me viu acorrentado a submissões;- dentro de uma humildade que ganhei no berço, abominei a egomania e a idolatria; não me convenceram as aparências, e para as minhas convicções busquei sempre os escaninhos. No exercício das minhas funções de magistrado, diuturnamente, dei o máximo dos meus esforços para bem desempenhá-las, (...) em nenhum momento transigi com a nobreza do cargo; escapei de juízos temerários, tomando cautelas para desembaraçar-me das influências de uma decisão;- e, se alguma vez, pequei contra a lei, vai-me a certeza de que o fiz para distribuir bondade e benevolência." Discurso pronunciado pelo juiz Luiz Gonzaga Belluzzo (1916 - 2000), por ocasião de sua aposentadoria. (Revista Carta Capital Nº504, 16 de julho de 2008)
Se existe alguma definição específica para a expressão "fibra moral", esse pronunciamento, sem dúvida, deve ser considerado seu hiperônimo.
E se algum nefasto multiplicador das idéias corporativas precisar mudar o conceito de "sucesso", taí um ótimo exemplo.
Grifo meu.
Mais do que justo.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Burocracia Rousseauriana


Nessa semana, em meu novo posto de trabalho, tive a oportunidade de verificar de perto o andamento de alguns programas do governo em conjunto com o BID, Ministério da Fazenda, entre outros. Não pude deixar de notar a grandiosidade burocrática que cercam as possibilidades existentes. Tamanha morosidade deve ensejar a desistência de muitas instituições quando se deparam com o tamanho dos dossiês e formulários. Também, pudera! A facilidade em adulterar, forjar e falsificar documentos provoca o escrutínio desenfreado. Muito há de se conhecer, mas, fazendo minhas as palavras do velho sábio Miltão (essa intimidade é pq eu sou neto do fera!), nunca a história da humanidade conviveu com tantas possibilidades de produzir um desenvolvimento equilibrado. Temos que assumir a burocracia em função dos espertinhos de plantão, pois o ser ontológico do atual governo (leia-se a política implícita em sua gestão) garante as ferramentas para tentar corrigir as assimetrias do território (como quer Samuel Pinheiro Guimarães). Para os estadofóbicos fica a ressalva de que, sem ele (o Estado), esses instrumentos não seriam possívels. Em contrapartida, para os estadomaníacos, vale dizer que os mecanismos seriam mais precisos caso a burocracia acelerasse a transferência de recursos, ao invés de procastinar cada vez mais.

Eu? Bem, quanto mais Estado, melhor, porém, quanto menos Estado, melhor também (sic). Mas, aqui, assino com a verve ferina do companheiro Delfim Netto, para quem é imprescindível que se tenha um Estado indutor, fiscalizador e intervencionista quando preciso. A medida desses fatores é dada, quem diria, pelo mercado.

E viva Jean Jacques Rousseau!

sábado, 5 de julho de 2008

Militantes do otimismo

Convoco todos à leitura da coluna da ex-ministra Marina Silva, no jornal Folha de S. Paulo, do dia 16 de junho de 2008. Sem querer usurpar as palavras da autora, as evoco num momento de muita coincidência com o que me ocorreu semana passada, mas não serei abusado em comparar suas sábias palavras com as minhas. Ao comentar a passagem de dois vencedores do premio Nobel da Paz pelo Brasil, a ministra ratifica a importância de se pensar na possibilidade concreta da requalificação dos padrões, dos costumes que, nos moldes atuais, direcionam à crença no fatalismo da perpetuação do atual modelo. Muhammad Yunus, o banqueiro dos pobres, através dos mecanismos do capital financeiro conseguiu trazer dignidade à uma determinada população, por meio da capilarização do microcrédito para ensejar atividades produtivas geradoras de renda. Milton Santos, outro grande sábio, dizia que nunca na história do mundo houve tantas possibilidades para construí-lo melhor e mais digno, pois a produção das coisas é muito maior do que se necessita. Os corolários da política é quem determinam os meios e os fins. Temos a faca e o queijo nas mãos. Nunca o dinheiro fluiu com tanta velocidade e volume, assim como também não me recordo nenhum momento (mas eu sou péssimo em lembrar de qualquer coisa) em que as normas pudessem controlar e territorializar as finanças, carregando consigo as possibilidades do período. Não há soluções isoladas, mas um complexo conjunto de instrumentos passíveis de serem articulados para uma distribuição equânime das possibilidades. Acreditar nisso é trazer para si parte da responsabilidade da viabilização e consecução desse projeto. Não acreditar e esconder-se atrás dos muros jornalísticos ou acadêmicos é atrasar, ainda mais, a realização desta utopia tão possível de ser concretizada. Marina Silva os chamam de "Militantes da Civilização". Concordo, mas acrescentaria, junto com Milton Santos, que também são os Militantes do Otimismo. Me alisto nesse grupo. Aos pessimistas incrédulos e reclamões, quem sabe a próxima senha não é a sua!


sexta-feira, 27 de junho de 2008

Atatürk tupiniquim e califado acadêmico!

Peço licença aos intrépidos guardiões do estabilishment. Responsável pelas principais transformações na sociedade turca quando do fim do império turco-otomano, Kemal Atatürk liderou o país às reformas ocidentalizantes que separam seu país de seus semelhantes árabes e persas (no plano político e social). A secularização e a desislamização (não sei se essa palavra existe), levadas à cabo sob forte imposição, foram as principais características de uma Turquia nova e renascida para o Ocidente. Aboliu-se o véu, o alfabeto árabe passou a conviver com o latino e as escolas passaram a ensinar o modus operandi europeizado.
Em nosso país não se fez necessário transformar a sociedade em um apêndice do velho continente, pois, no limite, nascemos como fiéis bastiões da praxis social semi-europeizada, pois somos fruto de uma relação incestuosa entre Espanha e Portugal. Mas, aqui, ainda vivem os equivalentes modernos dos Paxás (comandantes), do Califado (graduação de honra equivalente aos títulos de nobreza episcopal do Ancien Régime) e da Charia (conjunto de leis de ordem religiosa), extirpados a proclamação da República da Turquia, em 1923. A diferença é que nossos Paxás operam contra a virtuosidade do nosso território, o Califado canarinho se esconde nos muros da universidade (o original se escondia na mesquita) enquanto a Charia operante é uma cereja para o fluxo desenfreado do capital financeiro especulativo. Enquanto nossos decanos se alimentam da concupiscência, nós, jovens, utópicos e sonhadores temos que encontrar o Atatürk que reside em cada alma perturbada com a instabilidade do território.
Mas, companheiros, cuidado, pois como disse nosso amigo Sólon há mais de 2.500 anos atrás, "aqueles que hoje dispõem das maiores fortunas entre nós possuem, também, o dobro da voracidade dos demais, e quem poderá satisfazer a todos?" Se não podemos deixar a pasmaceira reinar, tampouco devemos ceder aos afagos sedutores da riqueza material.


Por mais longe que cheguemos, faça valer cada centavo que a sociedade aplicou em você (sim, vc, uspiano, fflechianio, feano, ou diabo que for), ou então compre logo sua capa e junte-se à trupe aí abaixo.



É, e eu estou bravo mesmo.


sábado, 21 de junho de 2008

A internet, segundo Göethe!

Este comentário pode parecer um tanto contraditório para o local onde está exposto. Todavia uma observação bastante auspiciosa (faltou modéstia aqui) me acendeu a luz vermelha. Nesta sexta (dia 20), enquanto convalecia de um ataque de pneumonia, estive em uma famosa livraria na Av. Paulista (sem jabá!!), na qual costumo flanar com certa frequência.

Entre uma livro e outro, observei uma cena no mínimo curiosa. Um sujeito sentado nos sofás destinados para leitura possuía em mãos um dos livros mais difíceis que já tentei ler (tentei, e só!!): O Fausto, de Göethe. Não fossem os fones de ouvido rajando um som extremamente alto em seus ouvidos, diria que a atitude do rapaz seria apenas "abusada".

A cena me fez concatenar pensamentos com uma notícia que li nesta semana sobre pesquisa que divulgou o aumento das horas em que o brasileiro passa "navegando" na internet. Atualmente, segundo a pesquisa, passamos mais tempo com o mouse nas mãos do que os americanos, japoneses e coreanos, famosos pela disposição em ficar de olho na telinha do computador. Isso significa que cada vez mais deixamos de fazer alguma coisa para passar uma horinha a mais na internet. Entre essas coisas, ler livros, jogar futebol, ir ao cinema, teatro, tacar pedras no lago, tocar a campanhia do vizinho e sair correndo, etc. Ano após ano, estas atividades são trocadas pelo click no mouse e o tilintintar do teclado.

Que me desculpem os defensores da convergência, aqueles que defendem o estudo na internet, leitura de livros junto com conversa no msn, ou, como nosso amigo da livraria, ler clássicos da literatura ouvindo música eletrônica de "altíssima" qualidade, mas a atividade reflexiva exige uma concentração exclusiva, que desqualifica desculpas como " consigo estudar na discoteca" ou "eu rendo melhor ouvindo Prodigy". Se fosse uma benesse tão sugestiva, deveríamos ser os principais exportadores de software, tecnologia da informação, e nossa educação deveria melhorar os índices internacionais. Porém, no mesmo talante que exportamos soja para a China e minério para o resto do mundo, importamos computadores, softwares e tecnologia dos idiotas temperados, pagando um preço bastante alto por isso.

Enquanto os nerds espalhafatosos da Coréia, Japão, Estados Unidos e Alemanha gastam cada vez menos tempo conectados na internet, nós, os espertões dos trópicos nos vangloriamos em universalizar o acesso à internet para alunos, enquanto deixamos a escola sem giz, lousa e assento. Sem falar no professor semi-defenestrado com cara de Bozo na mesa da sala, tentando terminar o trabalho do curso técnico que faz à noite. Sendo assim, as bibliotecas poderiam se tornar centro de convenções para encontros de usuários do MSN. Já imaginaram um saguão cheio de computadores e todo mundo confraternizando online? Deveríamos fazer como Hitler e queimar os livros, pois estes já não nos servem mais. Talvez sirvam para nossos momentos de galhofas no botequim, quando lembramos das coisas estúpidas do passado. Mas, ei, onde está o pessoal?!

Fecharam o botequim. Agora virou um Cyber-Café.

É justo.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

"Relaxa Sr. Presidente, está tudo sob controle!"

Presidente da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) disse ao presidente Lula, após uma reunião de avaliação da administração da crise dos aeroportos, que ninguém deve se preocupar, pois está tudo sob controle e as rotas estão sendo administradas da maneira mais segura possível ("estão sendo" é ótemo).
Para o Ministro da Defesa Nelson Jobim, o fluxo aéreo nacional nunca esteve tão bem controlado como agora:


Talvez o ministro esteja pensando, em primeiro lugar, em como administrar os problemas demográficos em situações emergenciais. Taí uma boa idéia!!

Está pensando em se matar? Compre logo sua passagem aérea e chegue "voando" na outra vida!

domingo, 15 de junho de 2008

Dea Pecuniae

Queria compartilhar com os companheiros este texto, na verdade, a letra de uma música. Não querendo cair na pieguice que se encontra instalada no meio digital, principalmente por este tipo de canal, já deixo a ressalva do caráter filosófico do tema.
Este grupo Sueco, Pain of Salvation, tem se mostrado um
tanto quanto diferente do que estamos acostumados a "Engolir"....vale a pena ir além da música e descobrir a crítica por trás da poesia.


Resumindo, leiam, ouçam no link abaixo e opinem, pois creio que o que vem a seguir proporciona um bom debate.
http://www.youtube.com/watch?v=GP9quQZsC2M

*tradução + do que livre!

Dea Pecuniae (Deusa Dinheiro)

I. Sr. Dinheiro

Srta. Mediocridade:
”Oi doçura. Eu te conheço? Juro que já vi seu rosto... e esses lindos olhos... Sabe, dizem que os olhos são a entrada para alma... Aí está um sorriso! Um pouco tímido, hein? Não quer sair daqui..."

Sr. Dinheiro:
Ei srta. Mediocridade, me desculpe
Você me viu na TV, sou o Sr. Dinheiro
Você quer alguém pra te segurar nos braços
e ligar quando você está na cidade
Alguém pra te acalmar e te deixar segura...
Bem, estou aqui...
...para te desapontar
Porque fora desses carros sexys
e longe dos meus bares da moda
Por trás desses sorrisos...
Srta. Mediocridade:
"...talvez ir a algum lugar..."
Sr. Dinheiro:
...e filtro solar...
Srta. Mediocridade:
"...mais quieto, onde nós pudéssemos... você sabe... bater um papo!"
Sr. Dinheiro:
...e “Viva o sonho!”s**...
Srta. Mediocridade:
"...e nos conhecer melhor..."
Sr. Dinheiro:
Eu sou frio!
Srta. Mediocridade:
"...não?"
Sr. Dinheiro:
E mau!

Srta. Mediocridade:
"Que tal uma voltinha naquele Bentley? Ele é seu, não? Prometo ser uma boa garota!
...ou má...
...o que você preferir!”

Sr. Dinheiro:
Daily Finantial – aquele sou eu no Armani
Tenho
três Mercedes 350, duas Ferraris
Eu poderia ter comprado um país de Terceiro Mundo
com as riquezas que gastei
Mas ei,
todas as teorias economicas modernas afirmam que eu mereço
cada centavo
E quando eu sou a metade menor
é que dividimos a conta
Então aqui vai um brinde a Amigos, Família e Liberdade, Genuidade, um brinde à Felicidade, Sucesso, Boa Imprensa, Nenhum Stress...
Mas acima de tudo...

Um brinde a Mim!
Um brinde a Mim!
Um brinde a Mim!
Nada restará...
Então...
Um brinde a Mim! (Dea Pecuniae: Oh baby, baby)
Um brinde a Mim! (Dea Pecuniae: Eu cuidarei de você)
Um brinde a Mim!
Nada restará...
Nada restará...
...para você

Dea Pecuniae:
"Se você procura realização
um Reino e uma Coroa
Um Paraíso de Voltas Grátis
Estou aqui...
...para te desapontar
Te darei os carros sexys
e um gosto de divinidade
Um lampejo das Estrelas
Imortalidade
Mas a Vaidade
te deixará esgotado e marcado
(Mr. Money: Isso mesmo, me dê!)

Um brinde a Mim! (Sr. Dinheiro: Oh baby, baby)
Um brinde a Mim! (Sr. Dinheiro: Você tomará conta de mim)
Um brinde a Mim!
A mim"

II. Permanere

Sr. Dinheiro:
Mas quando tudo está calado
e as luzes dos bares se apagam
Eu preciso de consolo
porque em algum lugar aqui no fundo
ascendem sentimentos de derrota
E eu odeio perder!

III. Eu brindo

Dizem que é solitário no topo
Então estou tão sozinho quanto se pode estar
Mas eu não me arrependo
Veja, eu escolhi essa companhia
Tenho um time vencedor
Sou Eu, Eu Mesmo e Eu
Podem apostar que é solitário no topo, velhos amigos
E hoje eu contarei a vocês idiotas o porquê!
(Dea Pecuniae!)
Dea Pecuniae
Dinheiro é o que há...
Eles afirmam que eu sou pago por minha grande Responsabilidade
Mas você sabe...
que isso é só uma desculpa esfarrapada
para minha egocentricidade
Eles dizem que somos iguais, eu e vocês
E eu realmente concordo
Veja:
Assim como eu,
vocês vivem para mim
até o dia de suas mortes
Por isso eu brindo a todos vocês que realmente acreditam que eu sou pago por minha grande responsabilidade
Pra todos vocês que caem nessa e pagam as minhas contas
Pra todos vocês que pensam que meu modo de vida não afeta o meio-ambiente
ou a pobreza
Bem, talvez não mais do que marginalmente
Bom pra vocês!
E querem saber?
Um brinde a vocês...
Ergo a minha taça, para aqueles entre vocês que dão suas fatias do bolo de graça para que eu as jogue na cara da democracia
Para aqueles que ajudam a tornar a solidariedade ideologicamente fora de moda
e caridade individualmente idiota, não sábia e característicamente maleável
Eu vos saúdo, pobres bastardos, porque todos vocês consentem enquanto eu sento à vossa mesa
Vamos brindar uma última vez, para dar a todos vocês o maior reconhecimento e crédito de todos os tempos - porque, afinal de contas, vamos encarar, esse é o único "obrigado" que vocês algum dia receberão
Então vamos lá - levantem suas taças!
Um brinde a vocês!
Nada restará - não!
Nada...
...além de dinheiro

sábado, 14 de junho de 2008

Ruy Castro

Companheiros,

Hoje, dia extremamente produtivo (semântica, apenas semântica), lendo jornais de outros dias, atrasado para variar, me deparei com uma coluna fantástica do glorioso e inigualável Ruy Castro. A despeito do tom jocoso com que analisa a sociedade e seus problemas, ninguem é capaz de nos despir (semântica, de novo) com tanta genialidade. Enquanto assistimos a escandalos políticos sortidos, ao mesmo tempo em que incestuosas alianças partidárias são formalizadas para as disputas municipais, e, por último mas não menos importante, enquanto o legislativo se corrói com inúmeras CPI's, deixando de votar e governar o país, o povo se diverte com a oferta de crédito potencializada nos últimos meses. A concupiscência penetra em todos os lares e classes sociais enquanto nossa classe dirigente goza de fazer política (aqui não é mais semântica) na acepção mais crua e fedorenta da palavra.

Como diz o mestre Ruy, o povo tapa o nariz e vai às compras.




crédito é o que não falta...

O mistério do Brócolis




Senhores,


Tomo o direito de perscruta-los sobre uma assertiva um tanto quanto sinistra (não, não é de esquerda), a qual roubei de um forum que costumo verificar. O ilustríssimo figurante que por lá voga, diz o seguinte: "brócolis não pensa, logo não existe." Ora, se sois ser pensante, dotado de impetuosa máquina aceleradora de atividades encefalogramicas, o que nos distingue da marmota? Seria este anfíbio (ou seria um mamífero?) dotado de rápida capacidade de pensamento, vide flagra ao lado, possuidor de raciocínio geométrico tão apurado quanto o nosso? O brócolis, quando aquecido às temperaturas efervescentes teria sua atividade cerebral estimulada pelo borbulhar das moléculas que, assim como nós, nos sobem à cabeça quando esquentamos demais? E a marmota, talvez pelo frio que faz no canadá, teria sua atividade cerebral reduzida a ponto de brincar de pega-pega no meio de uma corrida de fórmula 1?
E, à guisa de conclusão, porque nós, humanos, pensamos pouco quando precisamos e demasiado quando não precisamos? Afinal, se é preciso ter boa inteligência tanto para ir ao todo, quanto ao nada, quem dirá o quanto devemos pensar, com qual intensidade, projeção e operacionalidade?
Sendo assim, viva o Brócolis.
(Inspirado em Blaise Pascal, "Do espírito geométrico e da arte de persuadir")