terça-feira, 29 de julho de 2008

O grito dos inaudíveis


"A Terra é azul", bradou Yuri Gagarin a bordo da espaçonave que "navegou" a órbita terrestre no início da década de 1960. Por enquanto ainda é. Pois catita e fagueira vai se transformando em algo que nem o IPCC, nem Aziz Ab'Saber, nem Nostradamos sabem definir o que é. Não sou especialista em assuntos ambientais (aliás, não sou especialista em coisa alguma) e sou um feroz crítico daqueles que perdem seu tempo tentando descobrir por quantas vezes as formigas selvagens tropicais acasalam num dia. Todavia é inegável que as preocupações ambientais começam a atravessar as relações internacionais do ponto de vista político e econômico. Dos movimentos migratórios aos opulentos subsídios agrícolas, das tergiversações sobre o uso dos trangênicos e o fim das espécies naturais, entre outros, são alguns exemplos. Assim como Krypton que fora destruída pela própria civilização, em função da política ambiciosa, a Terra, aos poucos, vai caminhando para a destruição. Desmatamos as florestas, ajudamos a derreter as geleiras (ok, isso é controverso, mas só pra engrossar meu caldo vou ratificar), poluímos a atmosfera, aceleramos a desertificação das zonas tropicais, entulhamos o oceano com óleo, plástico e dejetos mais sortidos possíveis, não cuidamos dos rios, lagos e lagunas, nos degladiamos em ringues inúteis como as reuniões da OMC, etc. etc. etc.
Talvez a destruição seja inevitável, ainda que caiba perquirir sobre isso, mas, há como recrudescer ou postergar a catástrofe. Na história de Krypton, Jor-El envia seu filho para salvar sua civilização justamente em nosso planeta, para, quem sabe, reconstruir a história e salvar os humanos dos erros cometidos pelos kryptonianos. Nem a ficção foi capaz de nos alertar. Talvez nos falte um Jor-El para enviar um humano a outro planeta e reconstuir tudo novamente. Mas, pensando bem, é melhor que falte mesmo.
Esse post é dedicado àqueles que lutam pela conservação do nosso planeta ao mesmo tempo em que lutam pela simétrica perpetuação de nossa espécie. Quem acompanha o trabalho de Rujendra Pachauri e do IPCC sabe do que estou falando. Quem não conhece, não perca tempo!! Vá atrás, conheça, leia, ou, então, vá para o inferno.
Abraço

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Chevaliers de sangreal


A tentativa de salvar a rodada de negociações Doha, em 2001, assiste nesta semana mais um capítulo de sua longa história. A ambiciosa tentativa de imprimir a maior abertura do comércio mundial demanda ponderações pertinentes a sua implementação. As notícias de Genebra, até agora, não são muito animadoras quanto à exequibilidade dos acordos. O Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, sem dúvida uma de nossas grandes referências, embarcou, todavia, no que chamaria de missão "kamikaze" (já que estamos em épocas de metáforas históricas). Ora, minhas reflexões são contumazes, embora soem infantis devido minha descrença em certos tipos de relações comerciais. Estamos, junto com Amorim, em conflito com os países desenvolvidos, pois estes subsidiam seus agricultores com linhas de créditos especiais e taxas abusivas às importações de commodities dos países em desenvolvimento. O frisson centra-se em certa desvalorização no longo prazo e no possível bloqueio do crescimento econômico dos países exportadores. A assimetria da contrapartida solicitada pelos países mais ricos é tamanho absurda, que, em meu ponto de vista, chega a ser anedótica (não sei se essa palavra existe). Para que nossos agricultores tenham acesso ao mercado interno do G-5, seria necessário que reduzíssemos as tarifas alfandegárias de produtos industrializados. Ora, essa distorção aparenta um retrocesso à época mercantilista (se é que essa época se foi!!!) senão vejamos: estamos brigando para exportar soja, minério, suco de laranja, cana, etc.; cabe a ressalva de que esses produtos todos são enviados in natura, isto é, apenas para ilustrar com dois exemplos, o minério sai do Brasil, viaja 16 mil Km até a China, onde é processado pela indústria siderúrgica, para, em seguida, retornar ao Brasil em forma de trilhos, a tonelada do minério é vendida à média de US$ 150, enquanto a tonelada dos trilhos é importada por US$ 750 (ver Valor Econômico e Folha de S. Paulo de 21/07/2008). O suco de laranja não deixa por menos, pois é exportado em forma concentrada a granel, para ser processado, industrializado e envasado no exterior; em seguida, quem diria, é exportado para o Brasil. Isso mesmo!! Importamos o suco de laranja que começa a ser produzido aqui em Bebedouro, Taquaritinga, Matão, Itápolis, etc.

Para resumir, o núcleo de minha inquietação está na seguinte pergunta: Será que realmente precisamos ter sucesso nas negociações da OMC? Deveríamos, de fato, salvar a rodada Doha? Quais seriam os fins? Na minha maculada (pois não estou preparado) leitura, o sucesso dessa negociata seria perpetuar a assimetria que vigora desde a era colombiana. Continuaríamos a exportar minério, soja e laranja, produtos de baixo valor agregado, enquanto importamos toda a base produtiva do país. Deixarei essa leitura no plano da superficialidade (poderia aprofundar a discussão, mas...) pois aqui não há espaço para divagações contundentes. Se esse post conduzi-lo (a) à reflexão sobre a questão, a missão está cumprida. Obviamente que não se trata de uma "nova" polêmica, pois duvido que um diplomata do calibre de Celso Amorim não a tenha considerado. Todavia, faz-se mister uma breve ponderação e, se possível, marchemos a discussão aos arautos da diplomacia nacional.

É, eu sei. Isso já é muita ambição para esse blog. Mas, toda verdadeira cruzada começa assim: uma pequena inquietude que se transforma em uma verdadeira batalha.

Levante sua bandeira, pois o Santo Graal do século XXI não é um artefato qualquer, mas, sim, um conjunto de normas e leis que, uma vez assinadas, só a guerra é capaz de derrubá-las.

Pelo andar da carruagem, e pela honestidade das relações, é melhor preparar a espada e o escudo.

Já posso ouvir o som das baionetas.


segunda-feira, 21 de julho de 2008

Referências


Semana passada o delegado da Polícia Federal, Protógenes Queiroz, afastou-se do caso que liderou por mais de 4 anos, ainda que o "filé" de seu árduo trabalho esteja em plena degustação neste momento. Pressão? Ingerência externa? Fato é que já estão "malhando" o judas no delegado. Neste final de semana, o chanceler Celso Amorim fora severamente apedrejado (figura de linguagem) por comparar a reticente tentativa dos países mais ricos em tornar verossímil tarifas assimétricas na OMC (em referência à rodada de Doha), com a fórmula nazista (Goebbles) de se criar uma falsa verdade a partir da catafasia propagandística. Atualmente, autoridades chinesas são apontadas como responsáveis pelo presente cenário inflacionário mundial, pois colocou-se cerca de 200 milhões de pessoas no mercado consumidor, provendo-lhes poder de compra, sustentabilidade sem assistencialismo, tirando-os da linha da miséria.
Ou estamos com sérios problemas em reconhecer as boas referências em sua luta para a distribuição de "bondade e benevolência" (ver post abaixo), ou, notadamente, já não nos importamos mais com elas. Fato relevante para nós é que o povo não quer justiça, mas, sim, que pessoas acima do "standard" social sejam presas ou culpadas de uma realidade sem lei, de uma moral sem dono. Mas o pior ainda está por vir. Quando a inflação sair da esfera das commodities e alcançar os bens de consumo duráveis e não duráveis, afetando, assim, a classe média propriamente dita, aí sim a anarquia social será instaurada.
O que será de nós se o preço do Ipod subir? Culpa do Celso Amorim, que fica gastando seu precioso tempo com o sofisma dos preços agrícolas na OMC. Ou então culpemos o delegado Protógenes Queiroz por acusar e prender Daniel Dantas, bloqueando, assim, um dos maiores negócios do capitalismo moderno brasileiro, o que impediria muita gente de ter acesso à internet banda larga de 30 mb. Que tragédia! Deveríamos, então, aplicar a política nazista de Goebbles e executar a "solução final" aos mais de 200 milhões de novos consumidores chineses, afastando de vez com o problema inflacionário. Dos males o menor. Que morram os comunistas chineses!
Como disse acima, é apenas um grave problema de referência.
É cansativo e desanima. Mas, se Rocky Balboa continua na ativa, quem sou eu para desistir?
Isso é que é referência!


sexta-feira, 18 de julho de 2008

Fibra Moral

" Preferi a tranquilidade do silêncio ao ruído das propagandas falazes; não suportei afetações; as cortesias rasteiras, sinuosas e insinuantes, jamais encontraram agasalho em mim; em lugar algum pretendi subjugar, mas ninguém me viu acorrentado a submissões;- dentro de uma humildade que ganhei no berço, abominei a egomania e a idolatria; não me convenceram as aparências, e para as minhas convicções busquei sempre os escaninhos. No exercício das minhas funções de magistrado, diuturnamente, dei o máximo dos meus esforços para bem desempenhá-las, (...) em nenhum momento transigi com a nobreza do cargo; escapei de juízos temerários, tomando cautelas para desembaraçar-me das influências de uma decisão;- e, se alguma vez, pequei contra a lei, vai-me a certeza de que o fiz para distribuir bondade e benevolência." Discurso pronunciado pelo juiz Luiz Gonzaga Belluzzo (1916 - 2000), por ocasião de sua aposentadoria. (Revista Carta Capital Nº504, 16 de julho de 2008)
Se existe alguma definição específica para a expressão "fibra moral", esse pronunciamento, sem dúvida, deve ser considerado seu hiperônimo.
E se algum nefasto multiplicador das idéias corporativas precisar mudar o conceito de "sucesso", taí um ótimo exemplo.
Grifo meu.
Mais do que justo.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Burocracia Rousseauriana


Nessa semana, em meu novo posto de trabalho, tive a oportunidade de verificar de perto o andamento de alguns programas do governo em conjunto com o BID, Ministério da Fazenda, entre outros. Não pude deixar de notar a grandiosidade burocrática que cercam as possibilidades existentes. Tamanha morosidade deve ensejar a desistência de muitas instituições quando se deparam com o tamanho dos dossiês e formulários. Também, pudera! A facilidade em adulterar, forjar e falsificar documentos provoca o escrutínio desenfreado. Muito há de se conhecer, mas, fazendo minhas as palavras do velho sábio Miltão (essa intimidade é pq eu sou neto do fera!), nunca a história da humanidade conviveu com tantas possibilidades de produzir um desenvolvimento equilibrado. Temos que assumir a burocracia em função dos espertinhos de plantão, pois o ser ontológico do atual governo (leia-se a política implícita em sua gestão) garante as ferramentas para tentar corrigir as assimetrias do território (como quer Samuel Pinheiro Guimarães). Para os estadofóbicos fica a ressalva de que, sem ele (o Estado), esses instrumentos não seriam possívels. Em contrapartida, para os estadomaníacos, vale dizer que os mecanismos seriam mais precisos caso a burocracia acelerasse a transferência de recursos, ao invés de procastinar cada vez mais.

Eu? Bem, quanto mais Estado, melhor, porém, quanto menos Estado, melhor também (sic). Mas, aqui, assino com a verve ferina do companheiro Delfim Netto, para quem é imprescindível que se tenha um Estado indutor, fiscalizador e intervencionista quando preciso. A medida desses fatores é dada, quem diria, pelo mercado.

E viva Jean Jacques Rousseau!

sábado, 5 de julho de 2008

Militantes do otimismo

Convoco todos à leitura da coluna da ex-ministra Marina Silva, no jornal Folha de S. Paulo, do dia 16 de junho de 2008. Sem querer usurpar as palavras da autora, as evoco num momento de muita coincidência com o que me ocorreu semana passada, mas não serei abusado em comparar suas sábias palavras com as minhas. Ao comentar a passagem de dois vencedores do premio Nobel da Paz pelo Brasil, a ministra ratifica a importância de se pensar na possibilidade concreta da requalificação dos padrões, dos costumes que, nos moldes atuais, direcionam à crença no fatalismo da perpetuação do atual modelo. Muhammad Yunus, o banqueiro dos pobres, através dos mecanismos do capital financeiro conseguiu trazer dignidade à uma determinada população, por meio da capilarização do microcrédito para ensejar atividades produtivas geradoras de renda. Milton Santos, outro grande sábio, dizia que nunca na história do mundo houve tantas possibilidades para construí-lo melhor e mais digno, pois a produção das coisas é muito maior do que se necessita. Os corolários da política é quem determinam os meios e os fins. Temos a faca e o queijo nas mãos. Nunca o dinheiro fluiu com tanta velocidade e volume, assim como também não me recordo nenhum momento (mas eu sou péssimo em lembrar de qualquer coisa) em que as normas pudessem controlar e territorializar as finanças, carregando consigo as possibilidades do período. Não há soluções isoladas, mas um complexo conjunto de instrumentos passíveis de serem articulados para uma distribuição equânime das possibilidades. Acreditar nisso é trazer para si parte da responsabilidade da viabilização e consecução desse projeto. Não acreditar e esconder-se atrás dos muros jornalísticos ou acadêmicos é atrasar, ainda mais, a realização desta utopia tão possível de ser concretizada. Marina Silva os chamam de "Militantes da Civilização". Concordo, mas acrescentaria, junto com Milton Santos, que também são os Militantes do Otimismo. Me alisto nesse grupo. Aos pessimistas incrédulos e reclamões, quem sabe a próxima senha não é a sua!