sábado, 3 de abril de 2010

Sobre o V Forum Urbano Mundial

Semana passada o Brasil recebeu o V Forum Urbano Mundial. Evento com o "selo" ONU, programada pela UN-Habitat, ocorreu entre os dias 22 e 26 de março na bela - e quente, cidade do Rio de Janeiro.

Uma rápida palavra sobre a organização: excepcional! Respeito britânico aos horários, tradução instantânea para 3 idiomas, apoio tecnológico infalível, ar condicionado beirando a temperatura glacial (e isso foi muito importante!), debates essencialmente democráticos com a participação ostensiva do público, entre outros detalhes tão importantes quanto os citados.

No próprio emblema do evento, o slogan "O direito à cidade - unindo o urbano dividido" sugere um viés incomum sobre racionalidade da produção dos espaços urbanos. A expectativa era grande. Um público com sede de mudanças, cada qual com sua experiência, com sua história de gestão local, sua ação enquanto movimento social ou apenas enquanto cidadão. Tal qual o subtítulo do evento indica, se gerou grande expectativa por novas idéias, paradigmas capazes de promover a superação das contradições sociais existentes no modelo de construção das cidades do século XXI.

As mesas, inteligentemente montadas, eram compostas por administradores públicos, líderes de movimentos sociais, pesquisadores e representantes do setor privado. Ainda assim, mesmo os menos críticos ficariam desapontados com a essência do resultado que se viu. Muitos projetos urbanísticos, apresentados por arquitetos, engenheiros e urbanistas. Incontáveis sugestões e exemplos de administrações como a da prefeita (linda!) de Johanesburgo. Inúmeros debates sobre a importância da cultura na produção de habitação. Todas, sem exceção, experiências pusilânimes, natimortas, desencorajadas desde o nascedouro.

Consequentemente, logo notamos que o "direito à cidade" e a "indivisibilidade do urbano" são expressões antônimas em primeiro grau, isto é, não cabe interpretação sem a devida ruptura necessária da gestão do território urbano. Quiçá em sua totalidade. E os motivos são claros para quem o pensamento crítico é o princípio ativo. Pouco se questiona as engrenagens destrutivas do capitalismo. Nada se diz sobre a propriedade privada da terra, fator elementar quando se quer discutir o direito à cidade. Nenhuma discussão sobre as interações dos elementos do espaço (homens, firmas, instituições, meio físico, etc.). O que se viu foi uma grande sessão de psicanálise sobre a natureza das medidas paliativas para a pobreza. É como ir ao médico, doente, não questionar a doença, mas pensar no leito, no lençol, no lanchinho da tarde e na temperatura ambiente. Devo fazer justiça a alguns "voos solos" entre essa pletora de blá blá blá. Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Nabil Bonduki, Evaniza Soares, Edmílson Rodrigues, David Harvey, Peter Marcuse, entre outros.

A construção de um novo modelo urbano não irá ocorrer sem a averbação do pensamento crítico e pela própria crítica do pensamento. Não se trata de um cisma com o mercado, mas da maior interação das variáveis que compõem a estrutura do espaço urbano. E pensá-las como um sistema. Se pensarmos as variáveis isoladas teremos apenas abstração do real. Queremos pensar o espaço total - como diria Milton Santos, o espaço que escapa nossa apreensão empírica, pois as frações do espaço constituem o abstrato, pois seu valor sistêmico está no conjunto do todo a qual pertencem. Quero dizer que é válido discutir o problema do transporte em um bairro, da produção de habitação social nas áreas de ZEIS, do desemprego na zona "X" ou da favelização do bairro "Y". No entanto, essas variáveis se combinam e estuda-las sem contexto não traz soluções efetivas para a ruptura do modelo destrutivo que preside a construção do urbano em nossos países.

Esse evento, embora tenha apresentado uma rica oportunidade para a interação de diferentes modelos de gestão e troca de experiências, não induz ao pensamento daquilo que é mais crucial na produção da pobreza nas cidades do mundo inteiro. Enquanto não envidarmos, oficialmente, esforços para a superação das contradições sociais, para desmistificar o invólucro através do qual o capitalismo promove sua reprodução destrutiva, as cidades terão, cada vez mais, a cara da pobreza, da escassez e da miséria.

A produção eivada de um novo pensamento é a saída para o futuro das metrópoles. A globalização, enquanto fábula, se apresenta nesse modelo devastador, produtor de belas imagens, de iconografias homogêneas, da pop art de alguns países centrais. Contudo ela é perversa. E se tem algo que o capitalismo se provou altamente capaz, é a incorporação de discursos subersivos e sua perfeita utilização enquanto potencial para a reprodução ampliada do capital. Dessa cultura pobre-consumista.

E a ONU se tornou a instituição multilateral oficial desse processo.

Porém, talvez, espero eu, ela ainda o faça sem saber.

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