quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Discutindo as centralidades

A principal pauta da semana na agenda do noticiário foi o aniversário de São Paulo. E dia desses, nessas conversas casuais, o assunto sobre as múltiplas centralidades, sobre hierarquias urbanas estiveram presentes no "roteiro". Logo comecei a pensar sobre São Paulo e horas depois, já só, me concentrei um pouco sobre a validade da teoria dos lugares centrais, de Walter Christaller, e suas principais armadilhas interpretativas se quisermos jogar nossa cidade à luz dessa proposta - muito mais complexa do que a maioria dos geógrafos e arquitetos pensam!

(desculpem, pois serei muito breve na argumentação! Estou com pressa e vou ao sesc ver um show ainda hoje.)

É comum no meio acadêmico, sobretudo dentre pesquisadores urbanos, justificar as deficiências das cidades nos países em desenvolvimento, como o Brasil, a uma possível utilização institucional da teoria dos lugares centrais. Vários arquitetos e urbanistas da geração pós 1985 e grandes geógrafos acometidos pela eterna síndrome da "crise da geografia" são ferrenhos críticos do nosso amigo alemão (W. Christaller). Dizem que a elaboração de "centros fora do centro" foi deliberadamente uma política, conduzida pelo Estado, claro, para eliminar a necessidade da mobilidade urbana e, ou, mais grave ainda, para evitar que pessoas trafeguem até o centro da cidade como forma de preservar certas áreas ainda nobres (Jardins, Bela Vista, Higienópolis, etc.)

Uma geógrafa "gloriosa" chegou a dizer, quando das comemorações dos 450 anos da cidade de São Paulo, em um debate no departamento de Geografia, que a instituição do bilhete único era uma maneira de criar novas centralidades logísticas e evitar que as pessoas precisem passar pelo centro da cidade (pois o mecanismo de integração reduziria o fluxo de embarques nas regiões centrais para aumentar nos terminais); De fato, algumas centralidades foram criadas e outras ampliadas (terminal santo amaro, lapa, cachoeirinha); Mas, ora, se a intenção era criar novas hierarquias fora dos perímetros do "miolo chique da metrópole", com intuito em erguer barreiras invisíveis ao deslocamento "periferia-centro", como explicar o aumento da concentração dos empregos no centro, o elevado número de embarques nas estações de metrô e trem do centro expandido, o fluxo de empresas do setor de serviços para novas zonas "pseudo-empresariais"? (pseudo pois o plano diretor ainda nao aprovou tal mudança)

Ou seja, a leitura rasa de uma rica e erudita teoria cria interpretações falhas e, no mínimo, equivocadas (eufemismo pra, bem, vcs sabem...) sobre as racionalidades que "costuram" o tecido urbano da nossa cidade.

A ideia central da teoria dos lugares centrais é o abastecimento com o mínimo deslocamento possível. Parece simples, mas não é! Enquanto não houver, nessas centralidades, emprego, serviços públicos, escolas, hospitais, lazer e uma "intra-infra-estrutura", o deslocamento para "A" região central ainda será o principal fluxo da cidade - e não que um dia deixará de ser, mas poderá ser diminuido. Se fizermos o exercício de classificação e hierarquizaçao das centralidades de Sao Paulo iremos notar todas as deficiências que a nossa amiga geógrafa e professora da USP não notou ao bradar o grito do "ah, o Estado é o responsável pelo esvaziamento do centro".

Então, a pergunta que fica é? São Paulo não cria novas centralidades em detrimento de seu próprio centro (fisicamente falando), logo, como explicar que em nossa hierarquia urbana o centro continua sendo o centro de todas as centralidades?

Vou mandar por e-mail com essa pergunta à nossa professora...

(...) com uma cópia, claro, de alguns artigos sobre a teoria dos lugares centrais,

Falô?!


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O real gargalo do desenvolvimento urbano

Olá, tudo bem?! Quanto tempo, hã!?

Gostaria de compartilhar com vcs o "espólio" dos pensamentos sobre um trabalho que fiz a respeito dos limites do desenvolvimento urbano no Brasil. Ao escrever as considerações finais, dissertava sobre a necessidade da volta de um planejamento centralizado, porém no qual a sociedade civil, através de suas instituições representativas, participassem com maior possibilidade de ingerência no resultado final.

Em alguns municípios, como Santo André, a participação dos movimentos sociais e da sociedade civil de modo geral ajudam a arquitetar o orçamento, as diretrizes de arrecadação dos tributos, o plano diretor, as emendas normativas, etc. Isto é, a sociedade consegue "alargar" o contexto da participação social na administração da cidade. Embora Santo André não seja uma cidade de pequeno porte, ela o é se comparada à grande metrópole que lhe avizinha.

Pensemos São Paulo. Como imaginar a participação popular numa metrópole controlada pela figura dos incorporadores imobiliários, por uma classe média patrimonial, onde a reprodução do capital é a assertiva mor e anda de par com aquele que seria sua antítese: a administração pública! Ora, alguns diriam que o Estado é o responsável e o grande beneficiado com essa estrutura urbana, pois, se pensarmos que ele, o Estado, nada mais é do que a representação pública com direito ao uso da força e da coerção de uma classe social ascendente (essa leitura é puramente gramciana!), quem iria administrar um "negócio" sem o desejo de torná-lo eficiente.

Então, e eu digo isso inspirado em Roberto Mangabeira Unger, antes de pensarmos na qualidade das políticas, temos de executar uma ampla reforma das instituições públicas e das esferas de representação nos três níveis federativos. Ao prescindir de entronizar a cidadania como finalidade objetiva maior, as políticas includentes de desenvolvimento urbano morrerão no nascedouro, isto é, não se retira a possibilidade de sua execução, mas determina a não possibilidade de seu fim.

A quebra dos pactos territorias urbanos que, com a anuência do Estado, criam esse "nepotismo de classe", deve anteceder a execução das boas idas do planejamento público, embebido de uma austeridade republicana e responsável. E aos liberais em demasia, um recado meu: a omissão do Estado sobre a gestão e regulação do uso do solo tem a capacidade de alimentar causas muito mais deletérias do que o "não uso" das ferramentas de controle e gestão dos territórios.

Por isso, pequem os rifles, as baionetas e corram para o front!

Pois eu vou jogar bola!

Um abraço,

Jonatas